Biossegurança estuda como diminuir a chance de uma pandemia e como reduzir o dano quando uma começa. Entram nessa conta os surtos que começam na natureza, os patógenos que escapam de laboratório e os que são liberados de propósito. O guia segue a ordem do curso da BlueDot Impact e usa só o vocabulário necessário para ler as referências do final.
Quantas pessoas as pandemias já mataram
A gripe de 1918 matou dezenas de milhões de pessoas. As mortes por COVID-19 informadas oficialmente à Organização Mundial da Saúde passaram de sete milhões, e as estimativas do número real são bem maiores.
Os números de pandemias antigas têm muita incerteza, porque a maior parte do mundo não registrava óbitos. O artigo do Our World in Data, na lista de leituras, explica como essas estimativas são feitas.
Três origens de risco
Um surto natural acontece quando um vírus passa de animais para pessoas. Um acidente de laboratório acontece quando um patógeno escapa durante uma pesquisa. Um ataque deliberado acontece quando alguém espalha um patógeno para causar dano.
Vários países mantiveram programas de armas biológicas no século XX. O programa soviético continuou em segredo depois que a Convenção sobre Armas Biológicas, de 1972, proibiu esse tipo de arma. Até hoje a convenção não tem mecanismo para verificar se os países cumprem o acordo.
O papel da biotecnologia e da IA
Ler, escrever e editar DNA custa menos a cada ano e exige menos formação. As ferramentas usadas para criar vacinas e tratamentos também diminuem o preparo necessário para trabalhar com patógenos perigosos.
Modelos de IA que respondem perguntas de biologia podem ajudar alguém mal-intencionado a passar por etapas que antes levavam anos de estudo. Por isso parte do trabalho de biossegurança hoje acontece nas empresas de IA, com testes e salvaguardas nos modelos, e nas empresas de síntese de DNA, que conferem os pedidos antes de produzir.
Quatro linhas de defesa
O curso da BlueDot divide a resposta em quatro etapas, cada uma com medidas próprias.
- Prevenir
atrasar a primeira infecção. Isso inclui desestimular quem poderia causar dano, limitar o acesso a conhecimento e materiais perigosos, colocar salvaguardas nos modelos de IA e proteger a infraestrutura de pesquisa.
- Detectar
achar o surto cedo. Sistemas de vigilância podem sequenciar o material genético de amostras como o esgoto e encontrar patógenos que ninguém estava procurando. Testes rápidos e baratos ajudam a achar os casos.
- Resistir
reduzir a transmissão sem depender de remédios. Entram aqui máscaras e equipamentos de proteção melhores, ar mais limpo em ambientes fechados e medidas que diminuem o contato entre pessoas.
- Combater
encerrar a pandemia. Para isso é preciso desenvolver, testar, financiar, fabricar e distribuir vacinas e tratamentos em muito menos tempo do que hoje.
O que ainda falta
Muitas dessas medidas já existem em pequena escala. O sequenciamento de esgoto funciona em algumas cidades, alguns países mantêm estoques de equipamentos de proteção, e plataformas de vacina como a de mRNA encurtaram o desenvolvimento durante a COVID-19.
Faltam escala e velocidade. Para proteger o mundo inteiro seria preciso vigilância em muito mais lugares, equipamentos estocados antes do próximo surto e fábricas capazes de produzir vacinas em semanas.
Termos usados na área
- Patógeno
- vírus, bactéria ou outro agente que causa doença.
- Transbordamento
- quando um patógeno passa de um animal para um ser humano (em inglês, spillover).
- Biossegurança e bioproteção
- a primeira evita acidentes com patógenos e a segunda evita o uso deliberado para causar dano. Em inglês, biosafety e biosecurity.
- Sequenciamento metagenômico
- leitura de todo o material genético de uma amostra de uma vez, o que pode revelar patógenos desconhecidos.
- Intervenções não farmacêuticas
- medidas que reduzem a transmissão sem remédios, como máscaras, ventilação e distanciamento.
- Contramedidas médicas
- vacinas, tratamentos e testes usados contra uma doença.
- UV-C distante
- luz ultravioleta num comprimento de onda que pode inativar patógenos no ar de ambientes ocupados. Ainda está em estudo (em inglês, far-UVC).
- Triagem de síntese de DNA
- conferência dos pedidos de DNA sintético para barrar sequências que poderiam servir para montar um patógeno perigoso.
Por onde começar a ler
O curso e os dois textos de história dão o panorama. Os outros três tratam de estratégia e de dados.
Para começar
- Biosecurity BlueDot Impact · curso gratuito
O curso gratuito que este guia segue. São seis unidades sobre prevenir, detectar e responder a pandemias, com discussões semanais conduzidas por especialistas. Não exige formação em biologia.
- What were the death tolls from pandemics in history? Saloni Dattani · Our World in Data · 2023 · artigo
Quantas pessoas as maiores pandemias mataram e quão incerta é cada estimativa.
- Germ Warfare: A Very Graphic History Bipartisan Commission on Biodefense · 2019 · quadrinho
A história das armas biológicas contada em quadrinhos, dos cercos antigos aos programas do século XX.
Para aprofundar
- Pandemic prevention as fire-fighting Richard Williamson · Works in Progress · 2022 · ensaio
Compara a defesa contra pandemias com a história da prevenção de incêndios, em que as mortes caíram com normas de construção, alarmes e sprinklers.
- Preventing catastrophic pandemics 80,000 Hours · perfil de problema
Uma visão geral do problema e das carreiras em pesquisa, política pública e tecnologia que trabalham nele.
- High-risk human-caused pathogen exposure events from 1975-2016 David Manheim e Gregory Lewis · F1000Research · 2022 · artigo
Uma lista compilada de acidentes de laboratório e outras exposições a patógenos causadas por pessoas.
Na ImpactUFSCar
Ainda não temos um núcleo dedicado a bioriscos. O tema é próximo do nosso trabalho em segurança de IA, e quem quiser estudar com a gente pode entrar em contato.
Este guia segue a estrutura do curso de Biossegurança da BlueDot Impact. O texto foi escrito pela ImpactUFSCar.